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sábado, 7 de agosto de 2010

Feliz dia dos pais prá todos

Manoel, o audaz
Raimundo Sodré




Há alguns anos, lá na Praça da República eu vi o Delcley Machado tocando a música “Manuel, o Audaz”, do compositor mineiro Toninho Horta. Fiquei impressionado com aquela apresentação. Primeiro porque o show era ao ar livre e, já sabe né, com direito àquelas limitações de infra que a gente conhece quando o poder público se anima para ofertar um issozinho de bom para o povo. Mas olha só, benza Deus este menino Delcley. Ele foi primoroso, impecável na interpretação. Tocou com uma sensibilidade, com uma entrega. Mergulhou na melodia e nos apresentou alguma coisa que eu acho ser um pedacinho do céu. (E para não ser injusto na lembrança, acompanhando a encantadora guitarra e juncando de flores os solos fenomenais do Delcley, naquele dia, estava uma galera feríssima da música instrumental paraense).
Além do talento dos músicos que se doavam à pura arte, ali no anfiteatro da Praça, a melodia deixou marcas. Eu já conhecia outras versões, inclusive enriquecida com um belo poema, na voz do próprio Toninho Horta, mas naquele dia, a música daquele jeito (só tocada e com aquela harmonia mágica do Delcley), me veio com um calor especial. Calor de pai. Bateu, sabe. Fez tóim óim óim aqui dentro da minha caixola. Liguei o Manuel audaz da canção, ao Manoel meu pai, lá do Xapuri.
Sei pouco sobre ele. Parte do que sei de meu pai é o que minha mãe contava quando eu era pequeno. Depois que cresci, procurei saber mais. Fiz duas viagens ao Xapuri. Na última delas, passei cinco dias no seringal em que nasci e acabei participando da rotina do campo (querendo ser audaz), acordando cedo, espalhando ração pelo terreiro, chamando os bichos pra comer: thu thu thu thu thu (e vinha pato, pintinho, galinha, até porco, cabrito, bode apareciam no quintal atrás dum petisco). Experimentei o desjejum do seringueiro montado com carnes, caldos e o que mais desse ‘sustança’. Fui pra lida. Pilei arroz, tirei mourão, colhi o milho (e sabia que isso, esse usufruto de uma rocinha, um carvão aqui, uma casa de farinha acolá, esse mínimo para viver como bom cristão era uma conquista grandiosa do homem da floresta. Muita gente tombou sob a mira dos poderosos para que eu estivesse ali colhendo folhas da hortinha nos fundos do barracão. Por causa dessa vitória histórica, eu fazia aquilo envaidecido, orgulhoso do meu povo acreano). Ganhei as ruas de seringa, nos altos dos igarapés, e risquei umas quantas árvores pelo caminho. Em cada uma delas, deixei fincada minha tigela na espera dos gotejos preciosos que a nós são oferecidos pela abençoada, pela laureada Hevea brasiliensis. Proseei com meus tios, meus primos, ao anoitecer; ouvi a cotação da borracha pela Rádio Nacional de Brasília e como um bom seringueiro, me aquietei antes do Cruzeiro do Sul tombar no horizonte. Adormecia sempre cansado e pensativo, acompanhando a fumacinha e a tisna que a lamparina desenhava no telhado.
Depois do seringal, passei uns dias na cidade e conheci mais histórias de meu pai. Soube das traquinagens, dos desafios que ele enfrentou. E da batalha que não conseguiu vencer. Histórias fortes. Comoventes.
De homem forte que era, definhou. Morreu naquelas terras longes chamando pelos filhos.
Quando deixei o Acre, trouxe na bagagem meu pai de verdade. Um pai que eu sempre quis ter. Um Manoel audaz que aplicava até injeção e tomava uma bebida chamada leite de onça. Um pai que mesmo na ausência, me ensinou (ou fez nascer em mim, sei lá) esta vontade de ser pai.
Amanhã, a melodia de Manuel, o Audaz, do jeito que o Delcley tocou lá no anfiteatro vai trazer de novo, meu pai pra mim (e vou me confortar com o pouquinho de Manoel que sou). Na hora do almoço, pra abrandar meu coração, vou ficar só ouvindo os meus filhos: “pai, tal coisa assim assim?”, “o que acha disso, pai?”. Pai, isso. Pai, aquilo. Pai...E não vou me cansar de ouvir... “Pai”...
Preciso ouvir.

sábado, 27 de março de 2010

Crônica da semana-Raimundo Sodré

A hora do planeta


Uma campanha organizada pela WWF Brasil nos convida para, logo mais, às 8 e meia da noite, apagarmos as luzes da casa. O movimento propõe, ainda, que a gente fique, assim, no escuro, por uma hora. Esta manifestação faz parte do calendário anual de ações preservacionistas globais e procura chamar a atenção para o, cada vez mais verdadeiro (e assombroso), aquecimento do planeta. Mas olha! Este blecaute sugerido me caiu bem no dia em que comemoro 4 anos assinando a coluna Bom Dia de O Liberal. (E eu todo etiquetado para uma comemoraçãozinha mais tarde: uns amigos próximos, fãs fidelíssimos, declamação de poesias...leitura das minhas ‘dez mais’ publicadas aqui no Magazine, desde aquele eminente 27 de março de 2006; um destilado and rock pra ajudar na inspiração, um vinil chiando baixinho, ao fundo).
Tem nada não, vou dar um tempo no comprometimento etílico-literário, vou prolongar a nossa reuniãozinha e reinventar a prosa, nesta horinha de breu (puro escuro mesmo, já que nem vela vou acender). Vamos ficar ao tempo e às sutilezas, procurando ouvir a voz do coração, algum recado das estrelas...
Taí, será um bom momento para refletir sobre as discussões atuais que vingam aqui no Pará, e que envolvem a crença absoluta na utilização dos recursos hídricos como a principal fonte geradora de energia elétrica.
Belo Monte está na ordem do dia. Foi-não-foi, a gente vê uma manifestação contra. Daqui, pra’li, uma a favor. O debate está acalorado (olha o aquecimento aí), está nas esquinas, nas escolas. Alguém tem sempre uma opinião sobre o tema. A construção de uma hidrelétrica no Xingu, se não fizer todas as diferenças no desenvolvimento do Pará, por agora, ao menos já produz uma crescente noção de comprometimento e cidadania entre nós, os habitantes da floresta.
Parece não ter nenhuma relação a usina do Xingu, o blecaute logo mais, com os meus 4 anos na coluna. Mas tem sim. Eu trabalhava em Altamira, nas pesquisas pioneiras para a barragem quando escrevi a minha primeira crônica. Por aqueles tempos, gostava mesmo era de poesia. Séria, romântica, social. Tinha conseguido umas premiações modestas, era letrista do grupo Hera da Terra, transitei até por algumas construções concretas. Mas aí, numa carta para o meu irmão Edir Gaya, que estava aqui em Belém, experimentei um texto que chamei de “uma crônica psico-burguesa”, que trazia um certo despojamento na escrita, inspirado na turma do cartun paulistano (o Angeli havia utilizado a expressão ‘psico-burguês’ para definir um personagem dele). Agradou-me o resultado, e daí...
O interessante, é que esta crônica, desde aqueles tempos, não ganhou nenhuma publicação. Sobrevive ali, no original, manuscrita em garranchos ilegíveis. Teima em manter-se na escuridão (olha o blecaute aí). E eu, só olhando pra ela, admirando, refletindo e querendo entender como a fiz nascer. Não publiquei, não porque ela é fraca ou anacrônica. Ela até que é bacaninha. Não publiquei, por que, não sei.
(Sei apenas que Altamira, mesmo sem barragem, me mostrou a luz da minha primeira crônica e me mostrou também a energia que brotava do fundo dos olhos da minha querida Cléo.
Cleonice Farias apareceu pra mim, na hora em que eu regava o jardim da casa em que eu morava em Altamira. E virou flor. Entrou na minha vida para nunca mais sair. Doce e dedicada, foi a mão a me guiar pelas margens do Xingu. Foi a minha família, a minha segurança. Meu amparo e minha lucidez. Fui adotado por ela como irmão, lá em Altamira. Depois, nos encontramos em Belém. Enfrentamos momentos difíceis. Chegamos a dividir um ovo frito no jantar. Mas de jeito e maneira, fomos infelizes por causa dos apertos).
À noite, vou apagar as luzes de casa por uma hora e vou pensar na importância de uma amizade como a da Cléo, na essência de uma crônica não publicada, na necessidade da luz elétrica, nas intenções da WWF.
E, sobretudo, vou pensar na relevância de todas as coisas que não sei.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Crônica da semana-Raimundo Sodré

E põe magia nisso

Não foi à toa que a Unidos da Tijuca foi campeã do carnaval. A Escola arrasou demonstrando que a mulher é capaz de executar a proeza de mudar de roupa em uns poucos segundos.
Animava-se em mim, um fio de esperança quando, a um piscar de olhos, as bailarinas trocavam os modelitos à frente da Escola e despontavam para o mundo, imediatas e gentis.
Só na cabeça do Paulo Barros e nas raias insondáveis da fantasia foi possível tal bênção. Só mesmo protegida pelos argumentos da magia é que se pôde sugerir tamanha graça se consumar. Porque aqui em casa...
No domingão, é um pé pra acontecer d’eu ficar tiririca com ‘las linãs’ da minha vida. Mesmo que a gente combine tudinho, sempre emperra.
Destaco o domingo, porque é um dia relaxado, dia de ‘no stress’. Tem a praça da República, a feirinha de artesanato, um show no anfiteatro, água de coco, Bar do Parque, almoço diferente...
A gente até que se avia logo, eu e o menino. Coloco a minha farda de domingo (uma camisa, uma bermuda e uma ‘percata’, conjuntinho renovável impreterivelmente a cada liquidação de janeiro). Passo rapidola o pente no cocuruto (sabe, vejo que sou um dos poucos a dar ibope àquele pente vendido ali na beirada do Ver-O-Peso, de plástico azul-bem-clarinho-que-dobra-chega-faz-curva- quando-arrastado- sobre- o- cabelo e que nem Flamengo é) e já tô pronto. O filho, nem pente usa, é da turma dos desgrenhados. Dispensamos o café e aguardamos lá na frente, num pé e noutro.
Mas as duas...
A mulher, pisa, pisa, abre gaveta, fecha gaveta, sobe, desce, sai pra fora, entra pra dentro e não tá nem aí para os vícios da linguagem ou do adorável gênero. Reclama com a menina, diz ‘já vou’, quando grito ‘umbora que já vai dar dez horas’, lá da frente. Procura o maldito par daquela sandalinha rosa, constrói estilo, pinta uma idéia, desfaz tudo ‘que estava até bonito’ segundo a minha opinião lá de longe; resmunga alguma coisa e afirma taxativa, que não entendo nada. Nessa hora faço uma incursão ao front para ver como estão as coisas. E fico passado.
A filha pega uma escova e fica, fica, dizque penteando o cabelo (sempre acho que o que ela faz é continuar um soninho deselegantemente interrompido), quando torna, abre gaveta, fecha...diverge da a mãe e me desmonta com um olhar ameaçador. Vou-me embora de novo lembrando que ‘se tiver rolando algum show lá na praça, a essa hora, já está no finzinho’.
Passo na cozinha e pego um bico de pão com café, porque ninguém é de ferro e procuro termo.
Quando enfim, está todo mundo etiquetado, e já no rumo da diversão, volta tudo. Cadê as carteirinhas da meia-passagem. Ninguém sabe aonde deixou e a casa é posta abaixo. No vácuo, a menina encasqueta com aquele shortinho bacaninha e opta por uma saia balonê (que eu, na minha ignorância, acho cafonérrima), mas segundo a mãe, ‘deixa, deixa, é coisa da idade’. Estranho, as duas usam um batom acetinado, sem cor.
Saímos na batida da campa. Da minha programação só acho possível o Bar do Parque e um almoço logo na sequência (porque os filhos na largada anunciam que estão com fome. Dou uma bronca dizendo que a culpa é deles, porque eu já estava pronto desde que tempo e a gente poderia ter aproveitado que acordamos nove horas da madrugada, para tomar um café reforçado lá na feira da Pedreira, mas agora não dá mais, e pôxa, o domingo já está indo). Dali até á praça, como houvéssemos comido abiu, ninguém fala mais nada. No stressssss.
Animava-se em mim, um fio de esperança quando, a um piscar de olhos, as bailarinas trocavam os modelitos e despontavam imediatas. Mas quite, pura magia. E põe magia nisso.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Crônica da semana - Raimundo Sodré

O buraco da palmeira é mais embaixo
Em janeiro, dediquei as minhas escrivinhações de sábado a Belém. Em meio às homenagens pelos 394 anos da cidade, foi a maneira que achei de expressar a minha gratidão por este solo tão gentil.
Fui apenas mais unzinho. Muitos apaixonados declararam seu amor por Belém e das mais variadas formas. Acompanhei. Em shows, em reportagens especiais, em programações temáticas, exposições, testemunhos emocionados nos veículos de comunicação. Poesias, confissões, canções. Belém merece.
Não quero ser aqui, um desmancha prazer. Mas nem tudo são flores. Vou fechar este mês, com algumas necessárias reflexões.
Belém tem problemas graves e a cada dia clama para que seus enamorados a acudam. Assim como a bela de Toboso, a cidade anda por demais vexada ante inúmeros e insidiosos dragões.
Agora, pela época da chuva, é uma consumição só. Um respingo de nada é suficiente para a cidade submergir. E a gente, para garantir a rotina, tem que se arriscar com a água até aqui, ó, com o risco de sair lá no seco, no mínimo, com duas ou três ‘chamichugas’ serpenteando atrevidas na batata da nossa perna.
O trânsito é outro tormento. Deu de tardezinha, já era. O Entroncamento faz jus ao nome (todos os carros, todas as vidas, os ácidos humores e as indizíveis dores, unem-se em um tronco só) e aí, quem desata?
Educação, saúde pública, lazer e zelo ambiental fazem parte de um feixe de direitos que tentamos a todo custo abrigar entre as mãos, mas quite. Escapolem. Fogem da gente. Ganham rumo ignorado. E a gente, olha, atrás...E fala...E luta...E vota...E quando a gente pensa que vai conseguir, quando a gente bota fé que o governo tal vai dar aquela força...Nada...Os nossos sonhos se esvaem, escapolem de novo...
O dragão que se materializa com toda brutalidade e nos assusta, e nos acossa e nos reprime com mais intensidade e fogo é, com certeza, a violência. Não digo que a tensão social é um privilégio nosso, mas por ser Belém uma cidade do bem, por ser nossa cidade, aquela Belém da memória, aquela da saudade, uma cidade de paz que nos permitiu tantas vezes sentar à porta para apreciar o movimento da rua, não conseguimos digerir este estado de violência que vivemos. E não aceitamos isso.
A cada esquina, um risco. E não mais nos escondidos do subúrbio. Não há segregação para o mal e nem para as más intenções. As coisas acontecem descaradamente, a olhos vistos e ninguém está livre de ser hostilizado.
A violência, entretanto, não se realiza apenas no argumento covarde de uma arma. Somos agredidos de várias formas, e de igual maneira, covardes. A toda hora somos atazanados pela barulhada que impera na cidade. Nos reduzimos ante uma perversão sonora que se alastra como uma praga indomável. A todo instante, dezenas de decibéis invadem nosso cérebro despejando pelo caminho graves latejantes, agudos irritantes, versões bizarras, produtos, berros entrecortados, serviços, reverberações, batidões e a irrefutável falta de educação. E nos transformam em bagaço de gente. Poroso, inquieto, nervoso. E nos acendem as lâmpadas dos olhos, inadvertidamente, em plena hora do sossego, do estudo, da reflexão. Somos obrigados a nos divertir com a diversão dos outros. E ainda: estamos perdendo nossos jovens para os vícios, espreitas vis e para os enxerimentos on line. Um mix venenoso que corrói o fígado e a sensatez dos nossos meninos.
Mas Belém é celeiro de um povo conquistador. Tenho esperanças. Podemos trazer a nossa Belém de volta. A Belém de paz, do conforto social, da realização cidadã. Vale a pena apostar nisso e reagir. Porque amamos Belém.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Crônica da semana - Raimundo Sodré

Não vou sair, não vou deixar este lugar



Hoje, é bem mais fácil de entender. Abro o Google Earth e num instantinho reconstruo a viagem que fiz desde os férteis barrancos do rio Acre até a indefinida foz do Amazonas. Na imagem, revisito os retorcidos rios ocidentais; a inesgotável bacia hidrográfica; o sufocante estreito de Breves; a imensidão marajoara; a mansidão do Arrozal; os acintosos espigões; a simetria britânica e a perdoável arrogância das torres do mercado de ferro do Ver-O-Peso... Belém.
A baía do Marajó nos deu as boas vindas com um furioso banzeiro que levava o Domingos Assmar a uma perigosíssima coreografia alternando-se em audaciosas inclinações a bombordo, a estibordo. E a gente enjoando, se desesperando. Mamãe cuidando. Acalmando. Até que, impotente diante da forças das águas, nos juntou os quatro pequenos no camarote e nos uniu em fervorosa oração.
Deus sabia que queríamos ser paraenses, e quando ouvimos a quebradeira do mato, quando sentimos o ronco dos motores suavizar-se num surpreendente desafogo, quando percebemos um deslizar cômodo e seguro sobre o tapete líquido do furo do Arrozal, paramos de chorar, e nos abraçamos felizes com a certeza de que chegaríamos naquela Belém que mamãe tanto falava. Naquele lugar mágico margeado por florestas, rios grandes, sonhos e desejos. Naquela terra prometida em que reconstruiríamos as nossas histórias e reinventaríamos a vida longe das ruas de seringa e dos enlatados imperialistas.
(A mais determinante seqüência, desde a partida naquele batelão de linha, lá no Xapuri, que trago na memória é esta: a saída daquele furor líquido da baía do Marajó, a reconfortante estaladeira de mato, a calmaria do Arrozal e... As torres do Ver-O-Peso).
Se alguém um dia me pedir para definir Belém, não vou ter dúvidas. Belém é a minha bonança. A minha paz.
Tudo conspira, né. Todas as circunstâncias contribuíram para que eu admitisse que Belém seria a minha redenção, o meu fim, o meu desprendimento, o meu suspiro de alívio (depois daquele frenesi, na baía do Marajó, então, Belém foi uma graça alcançada).
Desembarcamos no galpão Mosqueiro-Soure dizendo “é aqui” nesta beira de rio.
E foi mesmo. Meus momentos mais marcantes da infância, da adolescência, da juventude e agora, já fazendo a rima com o ‘enta’, foram sempre à margem desta baía.
Um beijo, um porre, um pensamento mau, um dinheirinho suado, uma desilusão, um assombro, um arrependimento, uma despedida, um reencontro, uma poesia, um palavrão, uma maldição, meu bem, meu mal, minha indiferença, o pôr-do-sol, o luar, a cachaça de Abaeté, uma nota no violão, a chuva fina, o amanhecer, os olhos farinhados de sono, as pimentas coloridas e o verde das folhas orvalhadas pela madrugada, o mistério das ervas, o imprevisível humor das ondas que às vezes vão buscar a gente lá longe, a brisa amiga e refrescante no final da tarde, a minha saudade e o sal das minhas lágrimas que rolam agora sem embaraço nenhum...
Certa vez, depois de algumas adaptações, e um casamento perfeito, debandei. Passei dez anos vagando por aí. Trairei Belém. Me apaixonei por Porto velho, tive um caso quase que irreparável com Altamira, me iludi com os apelos calientes de Manaus, destrambelhei completamente por Macapá. Mas um dia... Um dia voltei aos aconchegantes braços da minha cidade.
E daqui, não saio mais.
Na beira deste rio quero descansar. Um dia (não agora, ainda não) atendendo a um convite irrecusável da natureza, o que restar de mim, “é aqui” que gostaria que repousasse para sempre. Quero me misturar às águas deste rio e virar maresia, maré cheia, Acará, Guamá, Guajará...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Pra riba

Crônica da semana - Raimundo Sodré

Estive fazendo umas continhas aí. Classificando, restringindo, alargando, desconfiando, confirmando, descobrindo. Certifiquei-me, inconformado, que não conheço ninguém que mora em edifício. Verdade! Não contabilizo um único amigo que more nas alturas. Digo prédio mesmo, daqueles que dá pra ver a baía lá de cima (Natália Lins ou blocos geminados que permitem acesso somente por escadas, não vale. O que vale é elevador, mesmo que seja daqueles com portas pantográficas). O meu séquito limita-se aos que se viram ao rés-do-chão. É todo mundo habitante do térreo (alguns, é verdade, ‘terráqueos’ de esquinas chiquerérrimas tipo Doca...Quer dizer, não exatamente Doca, e nem, absolutamente, esquinas, mas perto. Aquele perto que já dá pra se incomodar com o som dos carros tunados, com o chiliquito de playboys amantes do tecnobrega baiano e com o mix de aroma floral de detergente nos fins de tarde).
E antes que eu desembeste no texto, vou explicar que diabos vem a ser ‘porta pantográfica’. Bom. É um tipo de porta de elevador que a gente encontra nos prédios mais antigos da cidade e que tem o formato de pantógrafo.
?? Aloô!
Se não ajudou, a explicação, é só lembrar a última vez que a gente se dignou a responder a uma ‘notificação extrajudicial’ e teve que se dirigir a um escritório de advocacia para limpar o nome por causa daquela continha que a gente ‘esqueceu’ de pagar, no natal passado (e que virou um contão impagável). No geral, estes escritórios instalam-se em salas precedidas pela

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Crônica da semana - Raimundo Sodré

Índios


Éraste, parece uma coisa. Olha essa: tava aqui, ante um teclado silencioso, tentando iniciar uma crônica...
Aí fui buscar um dia, lá em Altamira quando Antônio, todo satisfeito, mostrou uma música do Renato Russo. E não é que a música tocou agorinha, no rádio. Parece que a providência guiou o programador musical para que a lembrança do Toninho viesse para mim, mais pura, mais verdadeiramente agradável, embora intolerantemente saudosa.
A música que toca agora é “Índios”, gravada pela banda Legião Urbana no álbum “Dois”, em 1986.
O antropólogo Antônio Pereira Neto chefiava a Administração Regional da Funai, em Altamira, quando o conheci. Nos encontramos de verdade, mesmo, em Altamira, mas tínhamos um quê de andarilhos, de trecheiros, que nos aproximava os espíritos. E foi assim permeada de encontros reais e virtuais por estes rincões amazônicos, que a nossa amizade aconteceu objetiva e sincera.
Soube do Toninho, pela primeira vez, lá no oeste do Brasil. Ele trabalhava no Acre e eu, em Rondônia. A seguir, vim para Altamira e o Toninho já estava lá na Funai. Ali, entabulamos as nossas conversas mais espirituosas e partilhamos amizades grandiosas. Nesse período ocorreu aquela cena por tudo edificante, em que o Toninho cantou, ao violão, a canção do Renato Russo. Tantas emoções. Histórias de perseguição política, do redimensionamento da prática indigenista, do confinamento e do desaparecimento pelos ermos da floresta construindo um conceito de aproximação e contato com os índios. Quantos gritos guerreiros se traduziam e se reproduziam ali na voz do Toninho, naquela noite, às margens do Xingu. Naquele momento a vida grandiosa do

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Crônica da semana - Raimundo Sodré



Escreva uma carta, meu amor


Tava a fim de um teretetê de pé de ouvido com uma amiga. Umas informações, umas fofocas, uns lamentos. Anunciei a intenção por telefone. Ela de prima sugeriu: “porque não contas por carta? Acho tão legal receber carta. Tão respeitoso. Me sinto importante. Encontrável. Divago até mesmo em rasantes filosóficos. Ora, eu recebo cartas, logo, eu existo.”
Reconheço que existam pessoas especiais que mereçam efemérides personalizadas, datadas, e carimbadas, escritas em papel leve e macio. Eu acho muito bacana, também, receber cartas.
Acontece que para quem escreve, do cabeçalho até o carimbo do correio, a epístola é uma aventura voluntariosa. Remeter uma carta é uma intenção cega, surda e muda, concebendo momentos de realizações nobres como rabiscar um papel.
É de bom tom, que a carta seja escrita a mão. Assim a gente é reconhecido. A letra de próprio punho é a nossa identidade. O nosso estado de espírito. Exprime a nossa saudade nos parágrafos iniciais, quando a tinta desliza singela sobre a seda disponível. Nos parágrafos intermediários, é ansiosa e cambaleante revelando incertezas e pecados na coordenação motora. No final das contas, a tinta é um borrão só decifrável com preciosa boa vontade, dizendo do nosso cansaço e do desejo de desabar na cama. Enfim, uma carta escrita a mão, como deve ser, nos traz do passado o nome da palavra escrita e um adjetivo realista para ela: a minha caligrafia é tão feia (ou numa versão ginasiana, “égua do garrancho, moleque”).
Não tem problema. O que interessa é que a amiga receba umas linhas, no caso, umas mal traçadas linhas. E a gente se adianta na missiva. E ponto final, acabou o mingau. A gente data e assina. Mas o sofrimento só está começando.
O envelope eu sei, eu sei. A gente tem certeza que tem um envelope guardado por aí exatamente para essas ocasiões. Ali, na gaveta. Numa daquelas pastas em cima do guarda-roupa. No armário, pr’os meninos não pegarem? É fatal, a gente sabe que tem um envelope em casa, mas quando precisa, nunca acha. No quinto dia de buscas, a gente desiste, e num misto de revolta e preguiça, vai até a papelaria e compra uns dez envelopes. Um, para o uso imediato. Os outros, desaparecerão, por certo.
A carta está pronta. Novidades mis. Fofocas desconcertantes, lamentos consoláveis. Envelopada e cola... Não, a gente não organiza mais brigada de buscas nenhuma em favor da cola. Vai até a cozinha, avança na panela de arroz, esmigalha uns quantos grãos entre os dedos nervosos e com aquela massa do cereal recém cozido, lambregalha as bordas do envelope. Pronto, está colada.
Monta na bike e se manda para o correio. Caramba! Não sei o que acontece, mas por mais tarde que a gente chegue, pela manhã, a agência ainda não abriu, ou por mais cedo que a gente vá, à tarde, a agência já fechou. O horário deles nunca combina com o da gente. E tanta coisa pra cuidar! Enfim, a gente faz campana e consegue conciliar um instantinho. O moço pesa a nossa carta tão levinha e anuncia o preço. A gente estica o Real até ele, e ele fulminante denuncia a falta de troco. Ah! Que vontade de brigar, de evocar o nosso direito de consumidor, mas que nada, não podemos perder esta chance, o lugar na fila, olha o horário! A gente cata as moedinhas. E ufa! Despacha a carta.
A amiga, a partir daquele momento, já pode esperar o carteiro chegar e gritar o seu nome, do portão e mesmo sabendo “quanta verdade tristonha ou mentira risonha, uma carta nos traz”, verá no subscrito a minha caligrafia e se entusiasmará com meu esforço em chegar até ali.
Mas aí, ainda tem aquele lance de extravio, né.

domingo, 22 de novembro de 2009

Crônica da semana - Raimundo Sodré


Espantando piuns

Naquela época, eu nem fumava, mas andava sempre com um cigarro de um tabaco bem forte (que eu mesmo tecia com aprumo e zelo), no canto da boca, fazendo fumaça para espantar o pium (um mosquitinho atentado que a qualquer vacilo nos drenava o sangue sem pena). Não tinha rigor no vestir mesmo porque, ali, no campo, não fazia questão de ser fashion. Uma bermuda surrada e uma camiseta de algodão fina me valiam. Um chapéu de palha raso, para fazer frente ao sol de Rondônia, também.
Tínhamos uma campanha para realizar numa fazenda que ficava perto de Ariquemes. Eu tinha um acampamento, ali próximo e fui escalado para fazer o reconhecimento da região e iniciar os contatos com o dono da terra.
A minha equipe contava com umas vinte pessoas. Deixamos o carro na estrada e seguimos a pé até a sede da fazenda. Lá encontramos um grupo que veio nos recepcionar. Um rapagão meio arqueado de tão alto que era, adiantou-se. Passou por mim, sem dar muita trela para o meu povo que se alinhava organizadamente ao redor. Parou no fim da fila, cumprimentou com respeito, um dos auxiliares e se colocou à disposição para as negociações sobre a pesquisa da cassiterita. O rapaz, meio desconcertado, declinou educadamente daquela intenção e adiantou para grandalhão que o responsável pela conversa e pela pesquisa era eu, que estava ali, à frente da turma, esperando o desfecho daquela indelicadeza. Ele voltou, apresentou-se como capataz, desculpou-se meio sem vontade, disse já estar sabendo do que se tratava e sem mais delongas nos liberou a área. Um cafezinho sequer, daqueles puros, cheirosinhos, de fazenda, ofereceu. Tudo bem. Demos meia volta e caímos no trecho.
Foi fácil entender a atitude do capataz. O rapaz que ele escolheu para prestar reverências era o único louro de olhos azuis da equipe. Nosotros exibíamos o perfil cafuso amazônico e ele, como tinha a missão de ratificar um acordo de alto nível que resultaria em uma boa grana, que modificaria a rotina da fazenda e que definiria o futuro de muita gente ali, caso houvesse a tão sonhada reserva de cassiterita, ligou este contexto delicado ao estereótipo representado pela cor da pele. Interpretou que o poder de decidir sobre aquela campanha, só poderia vir de alguém igual a ele de pele branca, estatura avantajada e dorso arqueado. Jamais pensaria que essas atribuições estavam concentradas exatamente naquele neguinho de um metro e meio com chapéu de palha com abas desfiadas, ostentando uma vestimenta barata e enganando os piuns com baforadas difusas do poderoso ‘Fumos Leão’.
Na memória recente do Brasil, não registramos conflitos raciais tão explicitamente drásticos como aqueles que conhecemos na história da África do Sul ou dos Estados Unidos. O que não significa que aqui a discriminação inexista. E o que não significa também que com este aplainamento dos impulsos, sem reações mais significativas, a gente tenha conseguido o paraíso da tolerância racial. Aquela experiência em Rondônia me causou desconforto e me mostrou que o caminho para vencer o preconceito, exatamente por causa desta indolente hipocrisia reinante no país, é bem mais tortuoso do que nos pregam as doutrinas ladrilhadas de fantasias.
Depois daquele dia, consegui até conversar com o capataz taludão. Rolou até o café. (A possibilidade de royalties polpudos arrefecia qualquer ímpeto de segregação). Só que deu azar, o gigante. Ao final da pesquisa, a área deu negativa e a mina com o cobiçado minério não vingou.
Quanto a mim, ainda bem que não me impressionei com aquela vexação e segui meu caminho cuidando para não dar sangue aos piuns.

domingo, 15 de novembro de 2009

Crônica da semana - Raimundo Sodré


Esses franceses...


“Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos...Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor...”.
Assim, com esta explicação, começam as aventuras de Asterix, o gaulês. O herói, criado há 50 anos pelo roteirista René Goscinny e pelo desenhista Albert Urdezo, vive numa pequena aldeia à beira- mar, encurralada pelas guarnições do exército romano. Ajudado por companheiros pra lá de especiais e por uma poção mágica que lhes garante um poder sobrenatural, Asterix e seus camaradas não se rendem e aprontam poucas e boas aos legionários de César.
(Meu primeiro contato com as revistas do Asterix foi em Rondônia. À época, a publicação contava com 27 edições. Todo mês eu pegava uma graninha e comprava um exemplar. Quando vim de férias para Belém, cheguei todo metidão, com minha coleção completinha: dias antes havia conseguido na Livraria da Rose, em Porto Velho , o mais recente lançamento, “O Filho de Asterix”.
Hoje em dia, conhecemos as aventuras de Asterix por causa de algumas estrelas como o ator Gérard Depardieu, que vive o intrépido Obelix nas versões para o cinema, e também por algumas produções em desenho animado. Mas o bom mesmo, para mim, são as edições impressas. Há uma certa magia na criação. O traço desenvolto de Urdezo e o texto bem-humorado de Goscinny são impecáveis, fascinantes. Há também, o fato de as edições serem únicas, especiais e historicamente bem argumentadas. Estes pormenores nas publicações se refletem, é claro, diretamente no preço. Um exemplar composto de aproximadamente 50 páginas, hoje, é bem carinho para os padrões de consumo de um operário que vara os dias e as noites pensando num jeito de trocar a geladeira que já está naquela fase de ter a porta amparada por um eficaz e multiético tijolinho.
Mas, naquele distante ano de 1984, eu desembarcava em Belém, de férias com a bagagem cheia de Asterix. Vinte e sete exemplares reluzentes, sem vincos. Só que não falei nada daqueles pormenores pra mamãe. Arrumei as revistas em uma caixa junto com alguns jornais e fui matar a saudade da minha Belém querida.
E eis que numa dessas minhas escapadas, passou lá por casa, um comprador de jornal velho. Daqueles que antigamente iam de casa em casa comprando papel. O golpe foi fatal. Mamãe pegou minha caixa e despachou a minha coleçãozinha de Asterix’zinho por uma merreca. Hoje seria coisa de um Real o quilo. Dá pra imaginar, né...Se existiu um zinho completamente desnorteado por aqueles dias, este um fui eu).
A Gália era uma região que hoje, corresponde à boa parte da França. Asterix, de certa forma, representa a natureza heróica do povo francês. O guerreiro resgata a altivez do líder Vercingentorix, cujo ato de depor as armas diante de César, mais o engrandeceu do que o deprimiu.
A teimosia de Asterix reverbera entre os franceses. Ecoa pelos escaninhos de Nanterre, lembrando maio de 68 e as palavras de ordem de Dany le rouge. Exibe-se nos lábios revoltosos de Brigitte Bardot e de Isabelle Adjani; no olhar arrebatador de Alain Delon e no sorriso indecifrável de Juliette Binoche. Traduz-se numa França cheia de inquietações e se reproduz em Zidanes argelinos.
Subversão que se desenha nos modelos de Chanel e Yves Saint Laurent. Desvela-se em Piaf, em Carla Bruni. Impõe-se na defesa intransigente da língua mater de Jeanne d'Arc. E que se denuncia ante a genial sonoridade de Ravel.
Asterix é um pouco da Revolucionária vontade (irrigada pela fluente coragem de Danton) que resistiu por entre os escondidos de Paris e que destronou os invasores nazistas.
Como diria o Obelix: “Esses franceses são...demais!”.

(Vou conseguir um dinheirinho e na Feira do Livro deste ano, vou começar outra coleção dos adoráveis gauleses).