sexta-feira, 11 de junho de 2010

domingo, 6 de junho de 2010

Um texto legal(tirado do blog da vovo Neuza)

Copiado (na íntegra) de um artigo da Rotogravura do Estado de São Paulo em meados dos anos 30 (grafia da época)


A Dactilographa - Figura do século

O famoso Keyserling que como tantas outras notabilidades mundiaes, fez tambem sua pequena “tourné” pela América do Sul diz, num dos seus mais suggestivos estudos, que cada civilização e cada época tem tido o seu typo especialmente representativo.
Nos tempos da Grécia heróica, esse typo foi o bardo, cantador de mythos e epopéas. Na Roma dominadora foi o César triumphante e dictador. Na Edade Média, o cavalleiro andante; na Renascença o artista;no século XVIII o pregador de doutrinas sociaes;no século XIX o burguês ennobrecido pelo comércio e pela indústria.
Nos nossos tempos, diz elle, é o conductor de machinas, sejam ellas a locomotiva, o avião ou o automóvel, O automóvel principalmente, que é a Machina que todos conhecem, sentem, querem e admiram, encerrando-se nella todo o significado da nossa cultura motorisada.
Keyserling terá razão talvez, para os que não passam da superficialidade das coisas. Para os que tem visão profunda, porém, não é o conductor das machinas de locomoção o typo especial da nossa era, como não é o automóvel a machina que ultimamente mais e melhor influe nos destinos humanos.
A grande figura do século XX, a real novidade que elle nos trouxe, é a Dactylographa, como dactylographa se entendendo não apenas a simples moça que bate os dedos num teclado de lettras, mas tambem a stenographa, a archivista, a contadora, a jornalista, a chefe de escriptorio, todas as mulheres, emfim, que penetram nos escriptorios a sombra amiga da “typewriter”.
Foi essa machina que deu ao elemento feminino o trabalho mental de qualidade. Foi ella que a investiu de um estatuto econômico novo, permitindo-lhe não só ter dinheiro, o que era simples acaso dos dotes e das heranças, mas também e principalmente “ganhar dinheiro”, o que é uma resultante do esforço e da capacidade próprios.
Antes da machina de escrever a mulher apenas podia pretender os mais rudimentares trabalhos de pura repetição, tarefas inferiores que constituem actividades meramente quantitativas, pondo-a em situação de menor ou de tutelada. Com a “typewriter”, porem, a mulher nivela-se ao homem na esphera da efficiencia mental. Nivela-se tanto e tão bem que em muitos casos chegou – e acima de tudo está chegando – a provocar uma completa alteração dos clássicos valores sexo-sociaes. Hoje uma dactylographa alcança, muitas vezes, ordenado bem superior ao de um dactylographo ou ao de qualquer outro empregado de escriptorio e nesses casos ficam fatalmente subvertidos os conceitos tradicionaes do amor. Perante o homem que produz, ella já não é mais uma simples consumidora e sim tambem uma productora, não raro melhor do que elle. Em frente do Patriarcha que tudo dava e tudo queria porque era o único a ganhar, ella pode agora erguer o seu voto econômico, pode falar no “meu dinheiro”, que ninguém lhe deu, mas sim ela própria ganhou.
Ninguém contesta, assim, que a mulher que ganha bem graças à machina de escrever, não mais olha para o homem que ganha menos ou egual com a mesma veneração submissa com que o fazia aquella para quem o casamento era a grande carreira, o Emprego Único. O homem perde deste modo, a sua superioridade econômica, a que menos a mulher discutia e impugnava, pois que elle deixou de ser a creatura única que ganhava e podia ganhar dinheiro. De agora em diante a mulher tem o estatuto econômico próprio, base de todas as independências, podendo –e querendo- ser ella tambem a Dona da Casa ou o Chefe da Família.
Tudo isto ella o deve à “typewriter”, a machininha que custa menos , muito menos do que o automóvel, o avião, e a locomotiva, nas quaes o piloto continua, realmente a ser o homem que guiava o cavallo ou que dirigia o coche, ao passo que com a “typewriter” a mulher tem uma arma que é uma alavanca. E que é uma escada, tambem, destruindo o desnível secular, criando um desnível novo, que traz no seu bojo a maior revolução da humanidade, porque está sendo a renovação operada no intercambio dos sexos.

A. R. Netto