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terça-feira, 27 de outubro de 2009

Camisa amarela - Crônica da semana - Raimundo Sodré

Era um ano antigo de uma década violada por violas, luas, torturas e guerras. Belém. Um daqueles dias quentes e abafados da minha querida Belém. Céu azul azul. Tudo parado, sem vento, sem vida. Apenas o padeiro passa silencioso, pedalando a sua bicicleta de padeiro. Sem alarde o café com pão da tarde. Alguém interrompe o cerzido monótono de esquina e toma lugar à mesa em meio a uma guerra da petizada pelo direito ao cuí do pão.
Tarde transcendente. Quente. Chata. Parada. Ardor cadente. Belém.
“Alô, alô, interior, quem mandou foi fulano...”. Hora do “café-com-pão-manteiga-não-que-engorda”. Do rádio, uma voz espalhada pela planície entorpecida, se comunica com o ‘interlan’ e sugere dietas.
O menino arruma três, quatro petecas no cós puído do short e lança-se ao mormaço da rua. Não foi à escola hoje. É dia de Educação Física e ele não tem o uniforme completo. Faltam-lhe as listras no short azul-marinho. A mãe deve explicar à professora que não achou short com listras no armarinho. Não vai para a aula enquanto a mãe não for se explicar com a ‘fessora’.
Logo agora que ensaia um canto e uma coreografia para o aniversário da escola (nos movimentos com o bastão, sempre erra a parte dele). Não foi à escola. São três horas da tarde e da agonia. Nem sinal daquela chuvinha (só aqui na minha janela para o passado é que ela existe). O canto para a festa: “sou soldado valente/e também sou gentil/pode crer minha gente/ eu nasci no Brasil”. E o meu short não tem listras, viu, completava ele.
Calor. Os colegas não apareceram na tarde modorrenta. Têm shorts com listras. Foram para a escola. Está tão só! Inventa um jogo de petecas consigo mesmo. Recita as regras: do mal. Fedeu-morreu. Escapole-deixa. Palmo-mata. Não dou mão e não tem ispa. Cria um impasse indissolúvel. Fico-e-não-dou-fico-pra-sair-do-lugar. É escabriado. Desiste do jogo. Precisa de um rumo para a sua tarde. Não foi à escola. Short sem listras. Tão só!
Hoje tem arraial! Ele sabe chegar ao largo. É perto do trabalho da mãe. Cadê a minha camisa amarela? A avó tá dormindo. Se acorda é logo que ralha. Ei, motorista, para no canto da Aveirense.
A mãe toma um susto quando o vê por ali. “O que foi, menino?”. Nada não, mãe dele. Não foi à escola por cauda daquela história, sabe. Estava tão sozinho. Sente que é bom estar contigo, mãe. Na solidão, te procura, mãe. Na tarde calorenta e vazia quer a mãe. Sentiu uma saudade dolorida. Saudade da mãe. Sabe aonde te encontrar, por isso veio...Deixa, mãe, deixa o menino combater a letargia da tarde.
Um sorriso orgulhoso brota dos lábios doces da mãe. Meu pequenino, já enfrenta as inquietudes de uma tarde deserta.
A mãe diminui o saldo do mês e arruma umas moedas no caixa, para uma volta no carrossel...
O menino escolhe um elefante cinza, de cara simpática. É divertido o sobe desce previsível do carrossel. A brisa do final de tarde anima o elefante bobo e voador. Iupiiiiiiiiiiii! Eia, elefante bobalhão, orelhudo. Patético. E... o menino voa de volta para casa. A mãe alertou: hoje é dia de muito movimento na padaria. Sai muito tarde, lá pelas onze horas, meia-noite. Uma volta no carrossel e casa. Não me espera. Pega o Pedreira-Nazaré, lá na São Jerônimo. Olha pros dois lados quando for atravessar a rua!
A mãe ficou para trás. Atrás da máquina registradora. A temperatura do seu dia mudou. Sente alguma satisfação, mas não está feliz. Rodou a valer no carrossel e tomou guaraná com pastel de queijo naquela tarde reveladora, mas o mel do algodão doce de alguém que passava ao seu lado, caiu na sua camisa amarela e eternizou ali uma mancha...doce

domingo, 17 de maio de 2009

Gabriel postou...

A DAY OF FURY disse...
A MANGUEIRA IIA Mangueira e as mangasNos galhos da mangueira brinquei de carro, construção, ônibus, avião, tanque de guerra, montanha e até de barco, balançava de um lado para o outro, até que um dia o galho que era o barco quebrou e tive que inventar uma nova brincadeira, então virei um “macaco”, pulava de galho em galho e ficava orgulhoso de saltar de um galho cada vez mais longe para o outro, nem me importava para o risco de cair de lá.Mas então começou a dar manga, e ora essa, do que se alimenta o macaco na mangueira? Descobri que podia subir escondido com uma faquinha branca de ponta redonda da mamãe e deitar na “mão” da mangueira, esticar o braço sem esforço nenhum apanhar uma deliciosa manga da penca ao lado e saborear uma, duas, três, quatro, quantas desse para agüentar e descer satisfeito.
17 de Maio de 2009 18:33
A DAY OF FURY disse...
A MANGUEIRA IIIA mangueira e o Ingá“Seu Sérgio” grande figura, preto velho de voz rouca, quando discutia besteiras falava até afinar a voz,hahahahaha. Era vizinho nosso, bem na frente da casa dele cresceu um “pé de ingá xixica”, que parecia um algodão doce, de tão doce que era, era uma verdadeira “atentação” dos moleques tentando roubar os ingás, e o seu Sérgio correndo atrás deles, quando não, ficava de prontidão escondido olhando pelas brechas da sua casa para defender suas frutas, que viravam lama debaixo da árvore devido a quantidade na mesma.Foi então que eu e o Daniel sentindo a dificuldade de apreciar tão gostosa iguaria, observado uma falha na segurança dos ingás e a natureza a nosso favor, notamos que os galhos da mangueira se estendiam para cima da casa do seu Sérgio e se emaranhavam nos galhos do ingazeiro, então engenhosamente como o MacGyver, em Profissão Perigo, pegamos um pau que servia de varal e um cabide de ferro, fizemos um magnífico gancho, e com toda adrenalina subimos na mangueira, o Daniel ficou apoiado em pé em um galho e o peito escorado em outro (nossa mangueira era fabulosa, nos permitia mil traquinagens) segurava a vara e prendia nos galhos da fruta proibida e puxava pra que pudesse aproximar mais os frutos mais distantes, e a parte mais perigosa que era de pegar os ingás ficava por minha conta. Tinha uma bermuda com um bolso imenso, e depois de encher todos os bolsos subíamos para as “mãos da mangueira e fazíamos a divisão, o Daniel até hoje se diverte imaginando a cara do Seu Sérgio brechando a frente da casa dele e reparando por baixo seus ingás e nem sequer passava pela cabeça dele que suas preciosas frutas estavam sendo devoradas.
17 de Maio de 2009 18:35
A DAY OF FURY disse...
A MANGUEIRA IVA mangueira e o IngáCerto sábado a tarde enquanto nos banqueteávamos com os ingás a mamãe viu a nossa arte e ordenou que descêssemos de lá senão pegaríamos uma boa surra, o susto foi tão grande que ao tentar guardar a vara o gancho soltou e ficou preso no ingazeiro, e o pior é que o cabide era amarelo e poderia ser visto pelo seu Sérgio, ficamos preocupados demais, descemos da mangueira morrendo de medo e nos aquietamos, então o céu escureceu que a tarde parecia ter virado noite, uma fortíssima chuva caiu com raios e trovões, estávamos na janela do quarto da frente aonde a Nen dormia, de repente um clarão e um estrondo tão alto fez nossos joelhos dobrarem com o susto, um raio caiu para os lados da Timbiras foi um susto e tanto, no dia seguinte o gancho havia caído e o galho do ingazeiro estava seco, nosso medo foi embora e a tristeza de não poder mais pegar o tão gostoso ingá tomou conta de nós, restava apenas ficar olhando de longe.
17 de Maio de 2009 18:37
A DAY OF FURY disse...
A MANGUEIRA VDe repente fiquei sabendo que o dono do terreno ao lado da nossa casa onde a mangueira ficava resolveu vender ou construir uma casa, chegou até oferecer pra mamãe, uma preocupação imensa tomou conta de mim: “Meu Deus vão cortar a mangueira!!!!” comecei a rezar para que a mamãe comprasse o terreno, que ganhássemos na mega sena, que achássemos um pote de ouro, mas que conseguíssemos comprar o terreno para não derrubar a mangueira, comecei a imaginar uma ampliação da nossa casa que pudesse ser feita para não cortar a mangueira, ou desenhar uma planta de uma casa aonde a mangueira continuaria como parte da casa, para quem comprar o terreno.Em vão foram meus pensamentos, a angustia tomou conta de mim e um dia de muita tristeza, alguém comprou o terreno e construiu uma casa, quando cheguei da Capela de Santo Antonio minha segunda casa havia sido cortada e os despojos dela jogados na beira da vala, lá iam embora toda a minha infância, as brincadeiras, as mangas e uma parte da minha história.
17 de Maio de 2009 18:38

terça-feira, 12 de maio de 2009

Artur disse...

Artur Dias disse...
E Neste doze de maio, o Zé fica mais velho. E isto serve para nos lembrar que, se tem artista nessa família, a culpa é dele. Sempre com alguma novidade pra lá de estranha, ou simplesmente bacana. Fora o caso do crânio dentro do saco de papel, trouxe pra gente o nanquim, a aquarela, o violão, a flauta doce, o origami, o batik, o desenho publicitário, o ábaco, a literatura, e essas meninas muito maneiras, essas pirralhas do cabelo liso e sua mãe dos olhos sonhadores.beijão e feliz aniversário!
12 de Maio de 2009 09:41
Artur Dias disse...
Falar em guerra, tinha o revólver. Não me perguntem o calibre, mas tinha, com coldre, cartucheira e tudo, de couro. Ficava pendurado numa prateleira da oficina na Pariquis com a Padre Eutíquio. Talvez mais por um "espírito pistolista", à moda mexicana, como diria o poeta Pablo Neruda, que propriamente para defesa pessoal. o fato é que revólver é coisa que chama moleque. E o Nazareno e eu, para não fugir à regra, um dia resolvemos pegar o danado. Mas o papai viu... Creio poucas vezes tê-lo visto com expressão tão infeliz no semblante, andando no fio da navalha, culpado até o último fio de cabelo, embora não nos tenha encontrado estiradinhos no chão. Mesmo assim, daquele dia em diante, nunca mais vimos o revólver, mandado sabe-se lá para onde. Apesar de que eu tinha a mais absoluta confiança de que o Nazareno não me apontaria a arma, como fazia a maioria dos moleques que nós conhecíamos.
12 de Maio de 2009 09:43