A tv. Dr. Moraes.Anos 60. Abro os olhos.O sol entra pelas frestas das paredes de madeira. O vapor sobe da panela de café.A casa fechada ainda guarda o cheiro gostoso.Na mesa, toalha de algodão branco, sobre ela um pão "massa-grossa" estalando de quente, cortado de comprido, passado manteiga e uma mantegueira verde limão transparente.
Nos quartos, as redes formando um "N".
Lá fora, mato alto, grosso. Era um capim afiado, riscava de leve a pele. Cortando o mato, pontes, ou como eu escutava falarem, estivas de madeira. A imagem era a de uma grande cabeleira verde se agitando com o vento, que começava na rua dos Timbiras e seguia até a rua Conceição. Prá mim não era bonito nem feio. Era normal. Eu não achava ruim.A gente morava lá e nunca ouvi ninguém dizer que aquilo era ruim. Andar se equilibrando pelas pontes era um mérito de moleque esperto, pelo menos na minha cabeça de moleque.
Compondo o espaço da Dr. Moraes, paralela às pontes, a vala, como se chamava popularmente, depois soube que podia se chamar também canal, o que prá mim soava menos pejorativo. A vala da Dr. Moaraes , pensando bem hoje, é uma entidade, um caráter próprio da rua. É a cara da rua, se a rua tivesse uma cara. Naquele tempo a agua era clara, dava prá ver os peixes. As laterais eram de cimento. Me disseram que foram os americanos, não sei por que cargas d'água, que construiram o leito da vala.