O pobre, antigamente, estava mais bem servido com as rezadeiras e pajés, do que hoje com o SUS e PSM da 14. Se a criança tinha uma diarréia ou chorava muito, não dva outra: Leva na casa da dona fulana!(não lembro agora o nome das diversas senhoras perto de casa e olha que tinha muitas). Eram casinhas de madeira, com quadros, enfeitados, de santos, vasos feitos de lata de leite, encapadas com papel de embrulho ou presente, cachorros e gatos circulando pelo ambiente. Na sala tinha Nossa Senhora, São Cristovão, etc, mas uma vez eu escapuli prá parte de detrás e pude ver nos fundos da casinha uns santinhos meio diferentes, umas velas coloridas.
O seu Celino, meu sogro, me contou que ele, moleque ainda, deu um jeito no pé jogando bola e teve que ser atendido pelo pajé lá do setor dele. Chegando lá, o seu Miriquito(digamos que seja esse o nome do rezador) mandou ele se acomodar num banco ao mesmo tempo que tirava do bolso um vidrinho do milagroso azeite de andiroba. Seu Miriquito untou as mãos e começou no lenga-lenga, massageando levemente e conversando mole falou que aparecia cobra de vez em quando no terreno dele( e seu Celino moleque ouvindo) e blá, blá, blá e disse que uma vez até apareceu uma das grandes que deu um susto nele. E apontando, bem no modo dos cablocos daqui, com o beiço numa direção: -Foi bem ali que a danada 'tava...Seu Celino virou a cabeça , curioso, prá olhar pra pernamanca do telhado, seu Miriquito aproveitando o momento de distração do paciente e...TRÓK !!! Deu aquela torcida "federal" no pé escangalhado.
Nesses momentos o "cabôco" ia e voltava na lua.(UI!)
sábado, 12 de setembro de 2009
Seu Sabazinho e vovó Cocota-Crônica da semana-Raimundo Sodré
Houve um tempo em que tratamento para rasgadura, desmentidura e deslocação era andiroba, cabacinha e a milagrosa reza do Seu Sabazinho. Pra espinhela caída, então, não tinha outro.
(Era bater e ver, embora até hoje eu não entenda muito bem o que seja espinhela, não saiba a sua exata localização e não ouse especular sobre o seu real status anatômico. Sei apenas que dor no peito e falta de respiração eram sintomas do descaminho malsão da espinhela e que parte da cura vinha, também, do poderoso emplasto Sabiá, todo furadinho).
Certa vez, num dos meus atrevimentos pelos campos do Areal, peguei um cacete dum moleque que rebolei lá longe, dentro de uma lagoinha que tinha até peixinho. E quede que eu me levantei. Não voltei mais pro jogo. Do meu pé vinha um zunido dizendo não (é verdade, nessas horas a gente não sente dor. Ocorre uma espécie de arrebatamento, a cabeça fica longe e a gente só percebe aquela ondinha circulando o nosso enfastiado mundo. O que nos cabe é aquele embaraço sonoro que se assemelha ao barulho que vem do poste de energia, ali, perto do transformador. Um longínquo, esquisito e eletrizado zuuumm).
Voltei caxingando para casa e no outro dia fui bater com o Seu Sabazinho. O pé, por acolá, bem inchado e dolorido.
Sentei num banquinho e esperei apreensivo pelo rezador. Quando ele apareceu, trazia na mão um ramo de Vassourinha e uma combuquinha sortida de um óleo acetinado. Untou as mãos e iniciou uma ladainha numa frequência tal que não podia ser percebida pelo ouvido humano (desde então, alimento a vã missão de decifrar aqueles dizeres. Percorri mundos atrás de alguém que me reproduzisse, pelo menos em parte, as orações que são proferidas pelos benzedores. Sem sucesso. Ninguém abre. O dom da benzeção é uma herança guardada a sete chaves e ninguém dá um pio sobre este ou aquele versículo. O que é garantido é que o Pai Nosso não falta, sempre tem e depois, é um Bzzzzzz baixinho e misterioso).
Em poucas ocasiões da minha vida, senti tanta dor. Naquele dia, acho que Seu Sabazinho não estava inspirado. Havia um momento desolador, aquele em que ele imprimia toda a sua fé. Dispensava o raminho (que era o meu alento, que protagonizava os melhores momentos da sessão) e lançava as mãos vigorosas sobre o nervinho inflamado do meu tornozelo. E apertava, e espremia e esticava, e comprimia...E a dor vinha terrível e diretamente proporcional ao fervor de um Sabazinho estranhamente excitado (quanto mais ele se elevava aos céus, mais eu via estrelas). Mas quando saí de lá, caminhei aliviado o estirão de pontes que desenhava a baixada da Pedreira.
As rezas e benzeções não se limitam aos males físicos produzidos por encontrões deseducados nas peladas do subúrbio. Estendem-se aos males da alma. Meus pequenos, quando quedavam-se ao mau-olhado, era rapidola que a gente procurava a vovó Cocota da Passagem Bom Jesus. Não havia esmorecimento ou panemice que vingasse ante o raminho de Arruda e das silenciosas preces da vozinha. Houve, uma vez, d’eu executar uma prescrição da vovó Cocota que me fez garimpar até uma fé adicional (porque duvidei da receita). Tive que passar meu menino pelo meio das pernas de frente para uma porta. Passava de um lado, despassava do outro. Foram umas quantas sessões desta desobriga para que o menino desamofinasse. Tava o puro quebranto, o pequeno. Mas, sarou.
Agora, a história é diferente. Por qualquer coisinha os meninos recorrem à medicina tradicional e, em alguns casos de entristecimento, até à orientação psicológica.
Antes, os bons benzedeiros eram a nossa valência. A nossa salvação.
(Era bater e ver, embora até hoje eu não entenda muito bem o que seja espinhela, não saiba a sua exata localização e não ouse especular sobre o seu real status anatômico. Sei apenas que dor no peito e falta de respiração eram sintomas do descaminho malsão da espinhela e que parte da cura vinha, também, do poderoso emplasto Sabiá, todo furadinho).
Certa vez, num dos meus atrevimentos pelos campos do Areal, peguei um cacete dum moleque que rebolei lá longe, dentro de uma lagoinha que tinha até peixinho. E quede que eu me levantei. Não voltei mais pro jogo. Do meu pé vinha um zunido dizendo não (é verdade, nessas horas a gente não sente dor. Ocorre uma espécie de arrebatamento, a cabeça fica longe e a gente só percebe aquela ondinha circulando o nosso enfastiado mundo. O que nos cabe é aquele embaraço sonoro que se assemelha ao barulho que vem do poste de energia, ali, perto do transformador. Um longínquo, esquisito e eletrizado zuuumm).
Voltei caxingando para casa e no outro dia fui bater com o Seu Sabazinho. O pé, por acolá, bem inchado e dolorido.
Sentei num banquinho e esperei apreensivo pelo rezador. Quando ele apareceu, trazia na mão um ramo de Vassourinha e uma combuquinha sortida de um óleo acetinado. Untou as mãos e iniciou uma ladainha numa frequência tal que não podia ser percebida pelo ouvido humano (desde então, alimento a vã missão de decifrar aqueles dizeres. Percorri mundos atrás de alguém que me reproduzisse, pelo menos em parte, as orações que são proferidas pelos benzedores. Sem sucesso. Ninguém abre. O dom da benzeção é uma herança guardada a sete chaves e ninguém dá um pio sobre este ou aquele versículo. O que é garantido é que o Pai Nosso não falta, sempre tem e depois, é um Bzzzzzz baixinho e misterioso).
Em poucas ocasiões da minha vida, senti tanta dor. Naquele dia, acho que Seu Sabazinho não estava inspirado. Havia um momento desolador, aquele em que ele imprimia toda a sua fé. Dispensava o raminho (que era o meu alento, que protagonizava os melhores momentos da sessão) e lançava as mãos vigorosas sobre o nervinho inflamado do meu tornozelo. E apertava, e espremia e esticava, e comprimia...E a dor vinha terrível e diretamente proporcional ao fervor de um Sabazinho estranhamente excitado (quanto mais ele se elevava aos céus, mais eu via estrelas). Mas quando saí de lá, caminhei aliviado o estirão de pontes que desenhava a baixada da Pedreira.
As rezas e benzeções não se limitam aos males físicos produzidos por encontrões deseducados nas peladas do subúrbio. Estendem-se aos males da alma. Meus pequenos, quando quedavam-se ao mau-olhado, era rapidola que a gente procurava a vovó Cocota da Passagem Bom Jesus. Não havia esmorecimento ou panemice que vingasse ante o raminho de Arruda e das silenciosas preces da vozinha. Houve, uma vez, d’eu executar uma prescrição da vovó Cocota que me fez garimpar até uma fé adicional (porque duvidei da receita). Tive que passar meu menino pelo meio das pernas de frente para uma porta. Passava de um lado, despassava do outro. Foram umas quantas sessões desta desobriga para que o menino desamofinasse. Tava o puro quebranto, o pequeno. Mas, sarou.
Agora, a história é diferente. Por qualquer coisinha os meninos recorrem à medicina tradicional e, em alguns casos de entristecimento, até à orientação psicológica.
Antes, os bons benzedeiros eram a nossa valência. A nossa salvação.
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reza cabacinha andiroba emplastro sabiá benzer
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Comentário do meu amigo Nonato
Manatus disse...
Olá Zé Maria.
Olá família Amorim Dias.
Muito legal o Blog. Felizmente conheço a maioria dos modelos fotográficos que posaram para esta amostra, o que me tormou familiarizado com o ambiente.
Um grande abraço a todos, muito sucesso e felicidade.
As transformações por que tem passado a instituição familiar nas últimas décadas, transformou a família tradicional em artigo de luxo e preservá-la é a quase certeza de que as gerações futuras terão à disposição maiores chances de resguardar os valores que poderão torná-los pessoas de bem.
Face à desagregação familiar oriunda da estupidez dominante da modernidade, essa é uma fórmula antiga, um antídoto poderoso... mesmo que um "tralhoto" esteja espreitando à beira do rio.
11 de Setembro de 2009 10:15
Olá Zé Maria.
Olá família Amorim Dias.
Muito legal o Blog. Felizmente conheço a maioria dos modelos fotográficos que posaram para esta amostra, o que me tormou familiarizado com o ambiente.
Um grande abraço a todos, muito sucesso e felicidade.
As transformações por que tem passado a instituição familiar nas últimas décadas, transformou a família tradicional em artigo de luxo e preservá-la é a quase certeza de que as gerações futuras terão à disposição maiores chances de resguardar os valores que poderão torná-los pessoas de bem.
Face à desagregação familiar oriunda da estupidez dominante da modernidade, essa é uma fórmula antiga, um antídoto poderoso... mesmo que um "tralhoto" esteja espreitando à beira do rio.
11 de Setembro de 2009 10:15
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
FOTOGRAFIAS
Pedi para o Flávio todos os álbuns de fotografias que estavam na casa da mamãe, para poder digitalizar todas as fotografias, pois não temos mais os negativos para mandar revelar, mas acho que estão faltando algumas fotos e alguns álbuns,
Quem tiver fotos antigas ou álbuns de nossa famíçia, peço por favor que me enviem para dar continuidade a preservação da memória da família Amorim Dias.
SOBRE "21 ANOS" PUBLICADO PELA FÁTIMA
Desculpe-me mana, pois comecei a ler sua poesia de manhã e não consegui fazê-lo sem que tomasse um novo fôlego prá somente voltar a lê-la agora. Porque que depois de tanto tempo, a perda de uma pessoa muito amada ainda dói como se tivesse ocorrido há poucos instantes? Vinte e um anos é pouco tempo para cicatrizar ferida tão profunda, porém sua poesia me anestesiou a dor e vai eternizar a obra de nosso pai. E pelo que li, você parece ter aprendido muito bem a lição intelectual que ele deixou prá nós. Muito linda e à altura dele mesmo.
SOBRE " 21 ANOS" PUBLICADO PELO ARTUR
Mano, eu também tive a mesma sensação de que metade de Belém tinha acompanhado o cortejo de nosso pai. Lembro-me da homenagem que fizemos e ele na missa com os óculos e algumas ferramentas que ele usava. Não perdeu nenhum filho de fome ou para o crime. Tenho muito orgulho de dizer isto também! Éramos pobres e morávamos em um lugar pouco privilegiado porém ter o pai que tivemos e a mãe que temos nos fez os mais privilegiados deste mundo. Me emocionei muito mesmo com este seu relato e digo que certamente é esta a sensação que sinto ainda hoje, com um pouco menos intensidade para não sofrer: a de abraçá-lo a qualquer hora do dia ou da noite e contar ou ouvir uma piada nova. Sinto que quando começava a curtí-lo, a missão dele por aqui parecia ter acabado. Lembro-me de, junto com a Fátima, termos dado uma bronca das grandes no médico que o operou. Embora muito competente, teve que nos ouvir calado quando dissemos que não o tratasse como se estivesse falando de um cachorro pronto para ser sacrificado, mas como um astro de grande magnitude que passaria por um eclipse total. Então voltáriamos para casa naquele dia com alguns anos e uns cabelos brancos a mais nas costas e na cabeça.
Fico feliz pois embora nosso pai não tenha constituído patrimônio financeiro, soube construir junto com a mamãe, homens e mulheres de um enorme valor, valor este conferido por mim em cada um dos momentos da minha vida embora não nos falemos diariamente. Somos nós esse legado de valor que vamos eternizar a obra do nosso grande pai e da nossa grande mãe.
Pai, sua benção! Durma com Deus! Mãe te amo!
Fico feliz pois embora nosso pai não tenha constituído patrimônio financeiro, soube construir junto com a mamãe, homens e mulheres de um enorme valor, valor este conferido por mim em cada um dos momentos da minha vida embora não nos falemos diariamente. Somos nós esse legado de valor que vamos eternizar a obra do nosso grande pai e da nossa grande mãe.
Pai, sua benção! Durma com Deus! Mãe te amo!
RESTAURAR A FOTO
Quem está com a foto em que aparecem eu e o Zé pequenos? E a foto do círio? Gostaria de restaurá-las e ficar com uma cópia.
RELICÁRIO...
PUXA VIDA! QUE SURPRESA INCRÍVEL!
NÃO IMAGINAVA QUE ESSAS FOTOS AINDA EXISTISSEM. VEJAM COMO EU SOU LINDINHO COM O BRAÇO QUEIMADO DE LEITE QUENTE....
NÃO IMAGINAVA QUE ESSAS FOTOS AINDA EXISTISSEM. VEJAM COMO EU SOU LINDINHO COM O BRAÇO QUEIMADO DE LEITE QUENTE....
DOMINGO DEPOIS DA MISSA
A GRANDE FAMÍLIA

Dona Maria, Nazareno, Zé Maria, Jorge, Fátima, Cássio, Nen (barriguda do André), Dilma, e essa perna fina é minha (Gabriel)
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